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O Caminho

O Caminho

29 de julho de 2026 · 3 Pinheiros

Antes de existir uma fazenda, um hotel ou asfalto ligando o vale à serra, havia caminhos. A região que hoje reúne Engenheiro Passos, Resende e a passagem da Mantiqueira rumo ao sul de Minas era uma paisagem de rios, campos e matas cortada por veredas. Nenhuma delas nasceu de projeto colonial. Já eram percorridas muito antes de qualquer estrada oficial, em territórios habitados por povos indígenas.

Picada, no vocabulário da época, não era estrada. Era trilha aberta a facão e machado, um corte na mata largo o bastante para passar gente e animal carregado, sem leito preparado e sem manutenção. O Picu é um ponto alto da Mantiqueira, que aparece nos documentos também como Itapucu ou Pedra do Picu, e de onde, por volta de 1600, o inglês Anthony Knivet teria levado amostras de ouro ao Rio de Janeiro. A Picada do Picu era a trilha que vencia a serra por ali. Mais tarde o nome passou ao posto fiscal montado na passagem, o Registro do Picu.

No começo do século XVIII, a notícia de ouro em Aiuruoca puxou gente atrás de acesso entre as áreas mineradoras e o litoral, e um dos percursos que ganhou importância descia a Mantiqueira em direção a Campo Alegre da Paraíba Nova, região que mais tarde daria origem a Resende. A passagem ficou ligada ao Picu, à atual Garganta do Registro e às rotas que conectavam Aiuruoca, Pouso Alto, o vale do Paraíba e o Rio de Janeiro.

A tradição historiográfica associa a esse movimento a expedição de Simão da Cunha Gago. Em 1744, acompanhado de sertanejos e do padre Felipe Teixeira Pinto, ele atravessou a serra e chegou a Campo Alegre. O episódio costuma ser lembrado como marco da ocupação colonial. Marco colonial, porém, não é o mesmo que início da história do lugar: Monsenhor Pizarro registrou um núcleo de povoamento anterior, datável de 1729 ou 1730.

A história do caminho começa, portanto, antes da estrada colonial e antes da fazenda. Ela se faz de circulação indígena, disputa por terra, busca de ouro e da vontade de ligar a serra ao vale.

A rota valia porque encurtava distâncias. Valia também porque escapava, em parte, ao controle da Coroa. Em 1745, uma ordem proibiu o caminho que saía das minas de Aiuruoca rumo ao Rio de Janeiro, associado a Antônio Gonçalves de Carvalho e sócios. O que preocupava as autoridades era o ouro e o diamante saindo por percursos que não passavam pelos registros fiscais. Proibido no papel, o caminho continuou sendo usado como um dos chamados descaminhos, à margem da fiscalização.

O mesmo caminho significava coisas diferentes conforme quem o olhasse. Para a Coroa, era uma ameaça ao quinto. Para tropeiros e comerciantes, alternativa de circulação e abastecimento. Para os povos indígenas, território já vivido e conhecido, agora atravessado por frentes de ocupação.

Em 1764, o Capitão Henrique José de Carvalho Queiroz declarou ter entrado naqueles sertões. No relatório que enviou ao vice-rei em 1791, deixou uma descrição reveladora: havia “pouco Povo”, e os moradores andavam ocupados nas “fortunas dos Caminhos” e na “conquista de gentio”. Relatou ainda vestígios de lavras anteriores à formação da povoação. Ou seja: já se garimpava ali antes de existir povoado.

“Fortunas dos caminhos” ajuda a imaginar o que uma rota significava. Homens, tropas e mercadorias em movimento criavam demanda por pouso, comida, pastagem, troca de animais e notícias. Uma passagem de serra era uma economia inteira, não uma linha no mapa. E no pé da Mantiqueira, antes de uma subida longa, quem levava carga entre Minas e o Rio dependia de um bom ponto de descanso.

Em 1775, o vigário de Campo Alegre, padre Henrique José de Carvalho, pediu autorização para reabrir a estrada até Aiuruoca. Seu requerimento falava em nove léguas de distância, na vista das “Línguas dos Campos” a partir do arraial e na chance de deixar o percurso ainda mais direto.

O século XIX abriu uma nova fase. Uma determinação real de 1816 estimulou a abertura de estradas para o comércio interior. Dois anos depois, moradores pediram licença para construir um atalho entre a Capela de Santana do Capivari e o Picu: economizaria cinco dias de marcha às tropas que subiam a serra. Em 1819, uma ordem régia referendou a abertura. O novo traçado se articulou à picada anterior, aberta por Gago e Antônio Gonçalves, e a ligação entre o sul de Minas e o vale do Paraíba entrou, enfim, em fase de regularização.

É nesse cenário que começa a história da Fazenda 3 Pinheiros. Não como ponto isolado, mas como parte de uma paisagem de passagens, pousos e comércio. A memória institucional da propriedade adota 1764 como marco de fundação e a associa ao Caminho Velho das Minas. As pesquisas reunidas confirmam que o período é fundamental para entender a circulação em Campo Alegre e na Mantiqueira.

Em meados do século XVIII, a região já era atravessada por caminhos, atividade econômica e conflito de ocupação. Foi dessa paisagem de veredas indígenas, picadas coloniais, tropas e pousos que nasceu o mundo rural da Fazenda 3 Pinheiros.

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