Repouso 3 Pinheiros: quando a casa abriu as portas
Na década de 1940, Augusto e Adriana Carvalho chegaram à estação de Engenheiro Passos, então conhecida como Bela Vista, para morar em uma pequena fazenda chamada Soledade. Segundo a memória familiar, eles primeiro arrendaram e depois compraram o Hotel Fazenda Três Pinheiros, que permanece ligado à família. Adriana, descrita como uma mulher de origem urbana, criou raízes na terra e passou a participar ativamente da construção de uma nova forma de acolhimento: uma hospedagem em que a casa, a família e a rotina rural eram parte essencial da experiência.
O que se formou ali foi um ambiente de convivência, cuidado e permanência, um verdadeiro espaço de repouso na serra. Os hóspedes daquele tempo costumavam chegar de trem e permanecer por longas temporadas, muitas vezes durante um mês e acompanhados de toda a família. A hospedagem combinava o conforto possível da casa com a simplicidade da vida rural: havia mesas grandes que reuniam diferentes famílias, moinho, galinhas, vacas, paiol de milho, ralador de mandioca, curral e uma turbina hidrelétrica.
O primeiro restaurante fazia parte desse conjunto. Pela manhã, os hóspedes podiam tomar leite diretamente no curral; à noite, depois do jantar, saíam para caminhar pela estrada Rio–Caxambu, ainda sem asfalto, observar a lua e cantar. A hospitalidade também se construía pela presença dos Carvalho: Augusto contava histórias, tocava acordeão, declamava e conduzia os serões que terminavam em dança. Havia festas na casa dos moradores da região, procissões até a pequena capela de Santa Cruz e despedidas na estação, quando hóspedes, familiares e empregados acompanhavam os viajantes de caminhão, acenando lenços brancos ao som da “valsa da despedida”.
Anunciar em jornal do Rio, em 1948, custava dinheiro. E a fazenda anunciou mais de uma vez. Em outubro daquele ano, o Correio da Manhã trazia a Fazenda Hotel de Repouso "Três Pinheiros" como destino de férias no sopé das Agulhas Negras, com ambiente familiar, passeios a cavalo, charrete, carro de boi e caminhonete. Em edição de dezembro, nova peça acrescentava leite em abundância e comida produzida ali mesmo. Em maio de 1949, foi a vez do Diário de Notícias, já com o nome abreviado: Repouso 3 Pinheiros (Fazenda). Os anúncios revelam que os Carvalho já tratavam a casa como negócio, confiavam no que tinha para oferecer e sabiam exatamente com quem queriam falar.
Nessa época, a casa tinha banheiros comuns e grandes mesas coletivas, que misturavam as famílias. Havia sala de costura, com costureira e bordadeira, escola, gramofone, um pequeno museu e capela. E a fazenda nunca deixou de funcionar como unidade rural: o curral, o moinho, o paiol, os animais e a produção de alimentos abasteciam a hospedagem e viravam, eles próprios, parte da experiência oferecida aos hóspedes.
Os cartões-postais do IBGE catalogados em 1949 mostram um conjunto de edificações térreas, telhados cerâmicos, pátios, caminhos e anexos rurais. Uma das imagens apresenta uma edificação rural comprida, com cobertura ampla e animais diante da construção; outras registram estradas arborizadas e a paisagem montanhosa do acesso.
Na segunda metade dos anos 1950, a estrutura se especializou. O anúncio da Revista da Semana, de 18 de janeiro de 1958, divulgava duas piscinas, sendo uma para adultos e outra para crianças, novo restaurante, nova sala de estar, novo conjunto de apartamentos, cinema e jogos de salão. O uso reiterado de “novo” reforça que obras e modernizações foram feitas e revela a passagem de uma hospedagem doméstica e comunitária para uma infraestrutura mais próxima de um hotel de lazer planejado.
A ideia de um “repouso” na serra resume, assim, mais do que uma função comercial. Ela expressa uma maneira de receber que unia permanência prolongada, comida, música, paisagem e trabalho cotidiano. A hotelaria nasceu da própria casa e não da separação absoluta entre hóspedes e moradores: as mesmas atividades que organizavam a vida rural — curral, cozinha, escola, capela, estrada e música — tornaram-se parte da experiência oferecida a quem chegava. É desse jeito de receber, ainda sem nome e sem fórmula, que o Brasil viu nascer a hotelaria de fazenda.